lunes 31 de octubre de 2011

A vida nem sempre é um milagre

Os catalães também têm suas crenças e superstições. A primeira que conheci foi a da imagem do San Pancrácio com uma moeda de 5 duros* enfiada no dedo pra dar sorte. Diz a lenda que de tanto em tanto é preciso colocar também umas folhas de salsinha pro santo ficar feliz.

Eu que cresci respirando os ares místicos de Salvador me identifiquei de cara com a tradição e logo no começo da minha vida aqui adquiri o meu próprio, antes da chegada do euro, colocando uma moedinha das antigas pesetas no seu dedo indicador. Um dia ele sofreu um acidente e quebrou a auréola, tadinho... Mas não posso me queixar, as coisas deram bastante certo, então concluo que o santo é mesmo forte.

Semana passada o mito voltou a tona falando com um amigo que abriu uma loja recentemente. Enquanto ele me contava que depois da luta inicial o negócio começava  a dar frutos, pensei que ele precisava de um San Pancrácio urgente pra garantir que tudo continue indo pra frente.

Imediatamente saí  a procura do presente prometido e mal sabia que estava entrando em uma saga que quase me levaria a loucura. Comecei a procurar nas lojas de chineses do meu bairro. Na primeira tentativa  já me sentia estranha perguntando pela sessão de santos no meio daquele mar de plástico. Pra minha surpresa tinham muitos santos, mas nenhum Pancrácio.

Na sequência entrei na segunda e na terceira  loja, ambas tentativas sem sucesso. Em uma delas o vendedor  arriscou uma venda cruzada: 

      - Tenho Jesus na “cluz”, serve?

Já na 4ª loja o chinês arregalou o olho, não sabia o que era um santo. Sua pergunta foi surpreendente: 

-  Santo pla qué?

Então me peguei explicando o que era e pra que servia um santo. Nunca pensei que fosse tão difícil conceitualizar o divino para um leigo, em um momento me vi levantando as mãos pro céu pra ver se com mímica  ele pegava. No fim consegui com muito esforço que ele entendesse, mas pra minha decepção na loja só tinham santos em forma de imãs para geladeira.

Nesse momento encontrar  o santo já tinha virado uma obsessão.

O 5º chinês não vendia santos, me pareceu honesto. Na 6ª loja (ainda no meu bairro) encontrei uma caixinha com a foto de San Pancrácio e nesse momento tudo se iluminou, mas quando tirei a imagem da caixa quase caio pra trás... tinham tomado a liberdade de adornar o pobre santo com purpurina!!


Achei que perderia um amigo se desse de presente o santo de purpurina, melhor não arriscar.

Na 7ª parada  encontrei outro e mais uma decepção: incorporava  uma roupa de pano... Não tem nada mais cafona que santo com vestidinho de veludo fake! Perderia duplamente meu amigo com essa opção, descartada. 

Viagens Barcelona

Já tinha ultrapassado as fronteiras do bairro e me encontrava  em um ataque compulsivo descendo em direção ao centro. Só mesmo estando em transe desceria pro centro um sábado de tarde atrás de um santo.

Raciocinei como todo Espanhol raciocina: no El Corte Inglés com certeza encontro a solução. E para lá me dirigi. Pra quem não sabe El Corte Inglés é a loja de departamento mais tradicional daqui, vendem de tudo: roupa, eletrodomésticos, cosméticos, brinquedos, comida, móveis ou qualquer outro bem comercializável dentro da lei.

Depois de subir umas 50 escadas rolantes consegui chegar no andar de artigos para o lar, para ganhar tempo decidi perguntar diretamente para a vendedora.  "Claro que conheço San Pancrácio!" Mas ela ficou em dúvida se tinham e decidiu perguntar pra colega que estava no caixa. A outra mulher quase morre de emoção quando ouviu o nome do santo, mas disse que infelizmente não vendiam santos.

As 2 mulheres continuavam  falando entre si com entusiasmo sobre as vantagens e milagres de San Pancrácio quando decidi virar as costas e ir embora, elas nem perceberam. Pelo menos tinha conseguido uma proeza inigualável: descobri algo que NÃO vende no El Corte Inglés.

Quando minhas forças estavam  a ponto de esgotar, decidi dar a última oportunidade. Apelando para a tradição fui garimpar nas ruas vizinhas à Catedral, lá tem santo pra dar e vender  No fim do dia, quando o comércio já estava a ponto de fechar e eu já estava de saco cheio de tanto procurar, consegui finalmente colocar as mãos em um lindo santinho de forma, tamanho e preço muito aceitáveis. 

Tinha uma moedinha dos tempos das pesetas estrategicamente  guardada em casa, então o presente foi completo. Agora San Pancrácio repousa feliz na sua nova residência.



Mensagem do dia: conquistar objetivos requere muito trabalho, e isso não é nenhum milagre.


(na foto o meu Pancracinho querido, com sua moedinha no dedo e a auréola quebrada pendurada no suvaco, força total!)



* “5 duros” é como chamavam  popularmente a antiga moeda de 25 pesetas, que tem um buraco no meio.










*** Se ficou com vontade de conhecer essa e outras tradições da Europa procure voos baratos aqui. 



4 comentarios:

Anónimo dijo...

uffa! cansei só de ler! mas petrus merece, hein?

bj sis

ps - adorei a auréola estrategicamente posicionada como bolsa a tira colo (sovaco não, né?)

Anónimo dijo...

amiga,

hj em dia comprar um santo virou uma grande aventura. Mas o bom é que teve um final-começo feliz.

beijos
Giovanna

Anónimo dijo...

m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o esse post!!!!!

só vc mesmo prima, pra explicar pro chino o que é um santo elevando as maos para o céu,meacabaei de rir ;)

bjo
céu

Anónimo dijo...

Rindo muito aqui!
Bel, me divirto com o seu Blog.
Vc conseguiu fazer o meu dia ficar mais leve com as minhas risadas :)
Beijoca..Dedéia

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